Voos offshore de helicóptero no Brasil: regras e requisitos
O que a norma exige do piloto, do helicóptero e do planejamento, com cada número ligado ao dispositivo que o sustenta.
Como funciona o voo offshore de helicóptero
O voo offshore de helicóptero leva trabalhadores às plataformas de petróleo. No Brasil, o transporte contratado segue o RBAC 135: o comandante em voo IFR precisa de licença de piloto comercial e 1.200 horas, ou de licença de linha aérea se a operação for regular, e o helicóptero que opera em plataforma deve ser certificado para pouso na água.
O volume é grande. Só na Bacia de Campos, segundo o DECEA (fonte na seção da Bacia de Campos, abaixo), a região atende mais de 70 plataformas marítimas e movimenta cerca de 20 mil voos por ano.
O RBAC 135 está na emenda 15, a mais recente publicada na página da norma na ANAC quando este guia foi revisto, em 01/10/2026. O RBAC 90 (Requisitos para Operações Especiais de Aviação Pública) não se aplica ao transporte offshore contratado: ele vale para órgãos e entes da administração pública no exercício de atribuições legais (§90.1(a)), e o §90.1(c) diz que táxi aéreo e demais serviços aéreos públicos, mesmo quando um órgão público precisa deles, são feitos por provedores autorizados pela ANAC.
Para treinar a parte de regulamentos, a trilha de simulados PLH helicóptero fica na Central de Estudos.
O que a norma exige do piloto
- Comandante em operação regular (§135.243(a)(2)): licença de piloto de linha aérea de helicóptero, habilitação IFR e habilitação de classe ou tipo. Os dois itens abaixo valem fora da operação regular, como no transporte sob demanda.
- Comandante em voo IFR (§135.243(c)): licença de piloto comercial na categoria, habilitação IFR de helicóptero ou licença de piloto de linha aérea de helicóptero, e no mínimo 1.200 horas de voo como piloto, incluindo 500 horas de navegação, 100 horas noturnas e 75 horas de voo por instrumentos, das quais pelo menos 50 em voo real.
- Comandante em operação só VFR (§135.243(b)): licença de piloto comercial na categoria e 500 horas de voo como piloto, incluindo 100 horas de navegação, das quais ao menos 25 à noite.
- Copiloto (§135.245): a norma não fixa horas mínimas. Pede licença de piloto comercial ou de piloto de tripulação múltipla, qualificação para a aeronave, o programa de treinamento aprovado do operador e qualificação para voo IFR, que deixa de ser exigida quando a seção 135.243 não a exige do comandante (§135.245(b)).
- Exame de proficiência IFR (§135.297(a)): para comandar em IFR, o piloto precisa ter sido aprovado, nos 6 meses calendáricos anteriores, num exame de proficiência em voo por instrumentos, aplicado por servidor designado da ANAC ou por piloto examinador credenciado.
- Experiência recente (§135.247(a)): o comandante cumpre os requisitos da seção 61.21 do RBAC 61.
- CMA de 1ª classe (RBAC 67, §67.13(a)): exigido de quem tem licença de piloto comercial. Pelo §67.15(a)(1), vale 12 meses, e 6 meses depois do aniversário de 60 anos para quem opera no transporte aéreo público, ou depois do de 40 anos no transporte público de passageiros com um só piloto. Os detalhes estão no guia do CMA.
E o HUET?
Combustível: o que entra na conta
Em IFR (§135.223(a)): o combustível utilizável soma quatro parcelas.
- Táxi: o que se espera consumir antes da decolagem.
- Destino: da decolagem até o pouso no destino.
- Alternativa: aproximação perdida no destino, subida, rota e pouso na alternativa. Quando o voo é feito sem alternativa de destino, nos casos do parágrafo 135.218(a)(1), essa parcela vira 15 minutos em velocidade de espera a 450 m (1.500 pés) sobre o destino.
- Reserva final: para helicóptero, a quantidade para voar 30 minutos em velocidade normal de cruzeiro.
Em VFR (§135.209(b)): combustível até o destino, mais 20 minutos em cruzeiro ótimo e uma quantidade adicional para possíveis contingências. A norma não fixa um percentual para essa última parcela.
Bacia de Campos: a malha nova de 26/11/2026
O DECEA anunciou em 28/08/2026 a reestruturação do espaço aéreo da Bacia de Campos, com implantação em 26 de novembro de 2026:
- as rotas fixas em leque a partir do continente saem, e entra o voo ponto a ponto sobre uma malha de quadrículas;
- cada quadrícula tem vértices separados por 10 milhas náuticas, cerca de 18 km, com identificação alfanumérica que define os fluxos de entrada e saída;
- passa a ser compulsório o transponder modo S com ADS-B;
- o controle conta com sensores ADS-B, estações VHF e estações meteorológicas automáticas instaladas em unidades marítimas, num esforço que envolve o DECEA, a Petrobras e a NAV Brasil.
O DECEA estima uma redução de 97.000 milhas náuticas voadas por ano na região. Para o contexto da vigilância por ADS-B nas bacias, veja ADS-B offshore.
Meteorologia no mar
O RBAC 135 manda usar a informação meteorológica do órgão competente do país sobrevoado ou de provedor reconhecido por ele; em VFR, o comandante pode usar as próprias observações ou as de outros pilotos (§135.213(a)). No Brasil, os METAR e TAF dos aeródromos costeiros estão na REDEMET.
Os fenômenos que mais pesam no planejamento offshore:
- Nevoeiro marítimo: forma-se quando ar quente e úmido passa sobre água mais fria, e pode fechar a visibilidade sobre a rota e as plataformas.
- Brisas marítima e terrestre: a troca de direção do vento ao longo do dia muda a aproximação ao helideck.
- Linhas de instabilidade: trazem trovoada, rajada e queda brusca de visibilidade ao longo da rota.
- Turbulência mecânica no helideck: a estrutura da plataforma, o guindaste e o queimador perturbam o vento em volta do convés de pouso.
Para ler os boletins, veja o guia de METAR e TAF; sobre o pouso em plataforma, o artigo Meteorologia offshore.
Emergência, HEMS e busca e salvamento
O HEMS (Helicopter Emergency Medical Services) é o transporte aeromédico de pacientes das plataformas para hospitais em terra. Quando feito por operador aéreo contratado, segue o RBAC 135, como o restante do transporte offshore. O RBAC 90 só se aplica à missão de aviação pública, conduzida por órgão da administração pública. A distinção é de quem opera, não da natureza médica do voo.
Quando uma aeronave está em emergência, o Serviço de Alerta do controle de tráfego aéreo (ICA 100-37, arts. 800 e 809) classifica a situação em fase de incerteza, de alerta ou de perigo e notifica o ARCC, o Centro de Coordenação de Salvamento Aeronáutico.
O que um pouso forçado na água ensina está no relato do ditching de um H160 saindo de Cabo Frio.
Briefing para o voo offshore
O briefing offshore cobre o que um briefing comum cobre e mais o ambiente marítimo:
- Meteorologia: METAR e TAF da base, previsão para a área offshore (vento, visibilidade, nevoeiro) e tendência.
- NOTAM: restrições de espaço aéreo e auxílios à navegação fora de serviço.
- Rota e alternativas: plataformas de destino e alternativas, com distâncias e tempos, e os pontos de decisão do trecho.
- Combustível: as parcelas do §135.223 (IFR) ou do §135.209 (VFR).
- Peso e balanceamento: passageiros, carga e combustível, com o CG conferido para cada decolagem e pouso.
- Helideck: disponibilidade, vento no convés e restrições do dia.
- Emergência: procedimento de pouso na água e localização dos botes e do ELT.
O AeroCopilot reúne no briefing METAR, TAF, NOTAM e dados de aeródromo, com cálculo de combustível e de peso e balanceamento, num documento só.
Briefing a dois pilotos
Perguntas Frequentes
- Quantas horas de voo o comandante precisa para voar offshore?
- O transporte de pessoal contratado para plataformas segue o RBAC 135, e as qualificações do piloto em comando estão na seção 135.243. Se o helicóptero é empregado em operação regular, o §135.243(a)(2) pede licença de piloto de linha aérea de helicóptero, habilitação IFR e habilitação de classe ou tipo. Fora da operação regular, que é o caso do transporte sob demanda, em voo IFR o §135.243(c) pede licença de piloto comercial na categoria, habilitação IFR de helicóptero (ou licença de piloto de linha aérea de helicóptero) e pelo menos 1.200 horas de voo como piloto, com 500 horas de navegação, 100 horas noturnas e 75 horas de voo por instrumentos, das quais 50 em voo real. Em operação só VFR, o §135.243(b) pede 500 horas de voo como piloto, com 100 horas de navegação e ao menos 25 delas à noite.
- Qual norma da ANAC rege o voo offshore de helicóptero?
- Para o transporte contratado, o RBAC 135, cujo título inclui os helicópteros, na emenda 15, a mais recente publicada na página da norma na ANAC em 01/10/2026. O RBAC 90 não se aplica ao transporte offshore contratado, já que trata de operações especiais de aviação pública, feitas por órgãos e entes da administração pública no exercício de atribuições legais (§90.1(a)); e o §90.1(c) diz que táxi aéreo e demais serviços aéreos públicos são feitos por provedores autorizados pela ANAC.
- O copiloto precisa de um mínimo de horas de voo?
- O RBAC 135 não fixa horas mínimas para o piloto segundo em comando. O §135.245(a) pede licença de piloto comercial ou de piloto de tripulação múltipla na categoria, qualificação para voo IFR e para a aeronave, e o programa de treinamento aprovado do operador para a aeronave e para a função a bordo. Pelo §135.245(b), a habilitação IFR deixa de ser exigida do copiloto quando a seção 135.243 não a exige do comandante.
- O que o RBAC 135 considera grande extensão de água para helicóptero?
- Pelo §135.167(e)(3), é o voo sobre a água a mais de 93 km (50 milhas marítimas) do litoral e a mais de 93 km de um heliponto fixo ou flutuante. Nessa condição valem os equipamentos de emergência dos parágrafos (a) a (c) da seção 135.167, e o §135.167(d) os exige também de todo helicóptero que opera em plataforma fixa ou flutuante offshore, a qualquer distância do litoral. A seção 135.165, de comunicação e navegação, tem definição própria (§135.165(e)): a partir de 186 km (100 milhas marítimas) do litoral, e é nessa distância que o §135.165(b)(7) pede um transmissor adicional.
- Quais equipamentos de emergência o helicóptero offshore leva?
- Para voar sobre grandes extensões de água e, pelo §135.167(d), para operar em qualquer plataforma fixa ou flutuante offshore, a seção 135.167 pede um colete salva-vidas aprovado com lâmpada localizadora para cada ocupante, botes aprovados com capacidade para todos os ocupantes (cada um com luz de localização, sinalização pirotécnica e, à escolha, um conjunto de sobrevivência apropriado à rota ou a lista de itens do §135.167(b)(3), como capota, refletor de radar, rações e água) e um ELT portátil ou de sobrevivência, flutuante e à prova d’água, fixado a um dos botes. O §135.167(d) acrescenta que o helicóptero que opera em plataformas fixas ou flutuantes deve ainda ser de tipo certificado para pouso normal na água, com flutuadores ou fuselagem tipo casco.
- Quanto combustível de reserva o helicóptero leva num voo offshore?
- Em IFR, o §135.223(a) soma o combustível de táxi, o de destino, o de alternativa e a reserva final, que para helicóptero é a quantidade para voar 30 minutos em velocidade normal de cruzeiro. Quando o voo é feito sem alternativa de destino, nos casos do parágrafo 135.218(a)(1), a parcela de alternativa vira 15 minutos em velocidade de espera a 450 m (1.500 pés) sobre o destino. Em VFR, o §135.209(b) pede combustível até o destino, mais 20 minutos em cruzeiro ótimo e uma quantidade adicional para contingências.
- O que muda na Bacia de Campos em 26 de novembro de 2026?
- Segundo o DECEA, em notícia de 28/08/2026, as rotas fixas em leque a partir do continente dão lugar ao voo ponto a ponto, sobre uma malha de quadrículas com vértices a cada 10 milhas náuticas, e o transponder modo S com ADS-B passa a ser compulsório. A região atende mais de 70 plataformas marítimas e cerca de 20 mil voos por ano, e o DECEA estima uma redução de 97.000 milhas náuticas voadas por ano.
- Qual certificado médico o piloto offshore precisa e quanto ele vale?
- O piloto comercial precisa de CMA de 1ª classe (RBAC 67, §67.13(a)). Pelo §67.15(a)(1), esse CMA vale 12 meses, e 6 meses depois do aniversário de 60 anos para quem opera no transporte aéreo público, ou depois do aniversário de 40 anos para quem opera transporte aéreo público de passageiros com um só piloto.
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