QNH é o ajuste que faz o altímetro indicar altitude (acima do nível médio do mar); QFE faz indicar altura sobre o aeródromo; QNE é a pressão padrão de 1013,2 hPa, que faz indicar nível de voo. No Brasil, pela ICA 100-12, voa-se com QNH até a altitude de transição e em níveis de voo, com 1013,2 hPa, acima dela.
Neste artigo
- O que são QNH, QNE e QFE?
- O que são altitude de transição e nível de transição?
- O que diz a norma sobre altitude e nível de voo?
- Qual ajuste usar em cada fase do voo?
- E o QFE, onde ele entra?
- O que muda para o piloto VFR?
- Por que um ajuste errado é perigoso?
- Perguntas frequentes
- Fontes e referências
O que são QNH, QNE e QFE?
O altímetro é um barômetro graduado em pés. Ele mede a pressão do ar em volta da aeronave e a converte em distância vertical a partir de uma pressão de referência, que o piloto escolhe na janela de ajuste (a janela de Kollsman). QNH, QNE e QFE são os três nomes dessa referência.
A ICA 100-12 lista as três abreviaturas no Art. 7, e a definição de Nível de Voo, no Anexo VII da mesma instrução, explica o que cada ajuste produz:
"o altímetro de pressão, calibrado de acordo com a atmosfera padrão, indicará: 1. altitude: quando ajustado para 'ajuste de altímetro' (QNH); 2. altura: quando ajustado para 'ajuste a zero' (QFE); e 3. nível de voo: quando ajustado para a pressão de 1013,2 hectopascais (QNE)."
O glossário do DECEA (MCA 100-27, Anexo III, verbetes AJUSTE A ZERO e AJUSTE DE ALTÍMETRO) completa as definições:
Definição: ajuste de altímetro (QNH) é a pressão barométrica de um ponto do solo reduzida ao nível médio do mar; introduzida no altímetro, ele indica a altitude do aeródromo quando a aeronave ali pousa. Ajuste a zero (QFE) é a pressão barométrica no ponto do solo, sem redução; com ele, o altímetro indica altura zero no pouso.
| Ajuste | Nome na ICA 100-12 | O altímetro indica | No solo do aeródromo, mostra |
|---|---|---|---|
| QNH | Ajuste de Altímetro | altitude (acima do nível médio do mar) | a elevação do aeródromo |
| QFE | Ajuste a Zero | altura (acima do aeródromo) | zero |
| QNE | Altitude Pressão Padrão (1013,2 hPa) | nível de voo | a altitude pressão do local |
Uma observação de vocabulário: nos procedimentos brasileiros, "QNE" é usado como o próprio ajuste padrão de 1013,2 hPa. É assim que a ICA 100-12 e o AIP Brasil escrevem, e é assim que este artigo usa o termo.
O que são altitude de transição e nível de transição?
Os dois conceitos marcam a fronteira entre voar com QNH e voar com 1013,2 hPa.
- Altitude de transição (TA): "altitude na qual ou abaixo da qual a posição vertical de uma aeronave é controlada por referência a altitudes" (ICA 100-12, Anexo VII, e MCA 100-27, Anexo III, verbete ALTITUDE DE TRANSIÇÃO).
- Nível de transição (TL): "nível de voo mais baixo disponível para uso, acima da altitude de transição" (MCA 100-27, Anexo III, verbete NÍVEL DE TRANSIÇÃO).
Entre os dois fica o espaço que a doutrina de navegação chama de camada de transição. O glossário do DECEA não traz verbete para esse termo; a ideia é que ali não se voa nivelado, só se atravessa na subida ou na descida.
Onde encontrar cada um. A TA é fixa e publicada: o AIP Brasil, na seção ENR 1.7, diz que a altitude de transição de cada aeródromo é a que consta das cartas de aproximação por instrumentos (IAC) e das cartas de saída por instrumentos (SID). O TL muda com a pressão do dia: o mesmo ENR 1.7 manda o órgão de controle defini-lo, ou o próprio piloto quando só houver serviço de informação de voo, por uma tabela que cruza a TA do aeródromo com o QNH do momento. A regra de leitura da tabela está escrita no próprio AIP: "Quanto menor o QNH, maior será o nível de transição."
A explicação é física: com pressão baixa, o nível de voo logo acima da TA fica mais perto do chão, e o TL precisa subir para manter o espaço entre os dois.
O que diz a norma sobre altitude e nível de voo?
A regra que decide a referência vertical está no Art. 22 da ICA 100-12, que vale para todo voo:
"Os níveis de cruzeiro nos quais um voo, ou parte dele, deve ser conduzido, serão referidos a: I - níveis de voo, para os voos que se efetuem em um nível igual ou superior ao nível de voo mais baixo utilizável ou, onde aplicável, para o voo que se efetue acima da altitude de transição; ou II - altitudes, para os voos que se efetuem abaixo do nível de voo mais baixo utilizável ou, onde aplicável, para os voos que se efetuem na altitude de transição ou abaixo."
Traduzindo para o altímetro: na TA ou abaixo dela, o voo é referido a altitude, portanto com QNH; acima da TA, é referido a nível de voo, portanto com 1013,2 hPa. A ICA 100-37 (Art. 322) mostra por que o padrão é obrigatório em rota: a separação vertical é obtida exigindo-se que as aeronaves ajustem seus altímetros para 1013,2 hPa e voem nos níveis que lhes forem destinados. Com todos na mesma referência, dois tráfegos em níveis diferentes ficam separados de verdade, qualquer que seja a pressão local.
Para praticar a leitura de cartas e níveis, a nossa página de estudos de navegação aérea reúne os fundamentos da matéria.
Qual ajuste usar em cada fase do voo?
O Art. 22 diz qual referência vale acima e abaixo da TA. O momento de girar o botão está no AIP Brasil, seção ENR 1.7 (procedimentos para ajuste de altímetro):
| Fase do voo | Ajuste | Onde está escrito |
|---|---|---|
| Táxi e decolagem | QNH | ENR 1.7: a pressão para o ajuste do altímetro é informada na autorização de táxi |
| Subida até a TA | QNH | ICA 100-12, Art. 22: referido a altitude |
| Passando a TA na subida | 1013,2 hPa (QNE) | ENR 1.7: ajuste "durante a subida ao passar pela altitude de transição do local de partida" |
| Cruzeiro acima da TA | 1013,2 hPa | ICA 100-12, Art. 22: referido a nível de voo |
| Início da chegada | QNH informado | ENR 1.7: o ajuste QNH é informado às aeronaves que chegam, tão logo se estabeleçam as comunicações |
| Descida | QNH | ENR 1.7: ajuste ao passar o nível de transição, ou quando o controle determinar ou autorizar |
| Aproximação e pouso | QNH | MCA 100-27: o altímetro indica a altitude do aeródromo no pouso |
Na descida há três casos que o ENR 1.7 separa:
- Sem órgão de controle, ou sob controle não radar: o ajuste para QNH é feito ao passar pelo nível de transição, ou antes, se o controle assim determinar.
- Sob vetoração radar: o ajuste para QNH é feito quando o órgão de controle determinar ou autorizar. O AIP prevê que o controle autorize o QNH acima do TL quando a descida for contínua, sem longos trechos nivelados.
- Procedimento com trajetória de penetração na IAC: o ajuste para QNH é feito ao iniciar a descida na trajetória de penetração.
Na prática, o controle entrega o QNH e o TL juntos. O MCA 100-16 (fraseologia), no Art. 114, traz o exemplo "TAM 3399, desça para 3.000 pés, ajuste de altímetro ou QNH 1016, nível de transição 035". O Art. 12 do mesmo manual inclui o ajuste de altímetro e os níveis de transição entre os dados que o piloto deve cotejar, e o Art. 29 manda transmitir o ajuste dígito a dígito ("uno zero uno meia").
E o QFE, onde ele entra?
O QFE existe nas definições da ICA 100-12 e do glossário do DECEA, mas os procedimentos de ajuste de altímetro do AIP Brasil (ENR 1.7) só falam em QNH e em 1013,2 hPa. Nenhum dos procedimentos brasileiros consultados manda o piloto voar com QFE.
Isso não torna o conceito inútil. Entender o QFE ajuda a ler a diferença entre altitude e altura, que aparece em mínimos de aproximação (DA/H, MDA/H) e na leitura de cartas. Mas, no altímetro, o piloto que voa no Brasil alterna entre QNH e 1013,2 hPa.
O que muda para o piloto VFR?
A regra do Art. 22 da ICA 100-12 vale para todo voo, VFR ou IFR. O piloto VFR que sobe acima da TA do aeródromo de partida passa a voar em nível de voo, com 1013,2 hPa, e informa a posição vertical nesses termos.
Há um detalhe de norma que liga os dois assuntos. O Art. 104, § 1°, e o Art. 127, parágrafo único, da ICA 100-12 dizem: "Quando a altura da altitude de transição for inferior a 3.050 m (10.000 pés) AMSL, o FL100 deve ser usado em lugar de 10.000 pés." Ou seja, os limites de visibilidade e de velocidade que a norma escreve em 10.000 pés passam a ser lidos como FL100 quando a TA local é mais baixa.
A escolha do nível de cruzeiro pela proa magnética é outra pergunta, respondida no guia da regra semicircular e dos níveis de voo e no post sobre a regra semicircular nas altitudes de cruzeiro.
Por que um ajuste errado é perigoso?
O erro de ajuste não aparece como alarme: o altímetro continua a mostrar um número plausível, só que em relação à referência errada. Perto do nível do mar, cada hectopascal de diferença vale cerca de 30 pés na indicação.
O caso clássico é descer com o altímetro ainda em 1013,2 hPa, sem ajustar o QNH, num dia de pressão baixa. Se o QNH do dia é 1003 hPa e o altímetro ficou em 1013,2, a diferença de cerca de 10 hPa faz o altímetro indicar em torno de 300 pés a mais do que a altitude real. A aeronave está mais baixa do que o piloto pensa, e o terreno não perdoa esse tipo de engano.
O AIP Brasil tem uma defesa embutida: o ENR 1.7 manda arredondar o QNH comunicado às aeronaves para o hectopascal inteiro inferior mais próximo. Um ajuste um pouco menor faz o altímetro indicar um pouco menos do que a altitude real, e a margem fica a favor do terreno.
Três hábitos que evitam o erro:
- Confira a TA na carta antes da decolagem e combine com você mesmo o momento do ajuste.
- Colacione sempre o QNH e o TL recebidos, como manda o Art. 12 do MCA 100-16.
- Faça o ajuste junto com o cruzamento, na lista de verificação de subida e de descida, e confira os dois altímetros quando houver.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre QNH e QFE?
Com QNH o altímetro indica altitude, a distância ao nível médio do mar, e mostra a elevação do aeródromo no pouso. Com QFE ele indica altura sobre o aeródromo e mostra zero no pouso. As definições estão na ICA 100-12 e no glossário MCA 100-27 do DECEA.
O que é QNE?
É o ajuste padrão de 1013,2 hPa, chamado na ICA 100-12 de Altitude Pressão Padrão. Com ele, o altímetro indica nível de voo, a referência usada acima da altitude de transição.
Quando trocar o QNH pelo 1013,2 hPa na subida?
Ao passar pela altitude de transição do aeródromo de partida, conforme o AIP Brasil, seção ENR 1.7. Acima da TA, o Art. 22 da ICA 100-12 manda referir o voo a níveis de voo.
Quando voltar para o QNH na descida?
Ao passar pelo nível de transição, ou quando o órgão de controle determinar ou autorizar, conforme o AIP Brasil (ENR 1.7). Em procedimento com trajetória de penetração, o ajuste é feito ao iniciar a penetração.
Onde encontro a altitude de transição de um aeródromo?
Nas cartas de aproximação por instrumentos (IAC) e nas cartas de saída por instrumentos (SID) do aeródromo, como informa o AIP Brasil, seção ENR 1.7.
O nível de transição é sempre o mesmo?
Não. Ele depende da altitude de transição e do QNH do momento. O controle o define por uma tabela do AIP Brasil, e quanto menor o QNH, maior o nível de transição.
Piloto VFR também muda o ajuste do altímetro?
Sim. O Art. 22 da ICA 100-12 vale para todo voo: acima da altitude de transição, o voo VFR também é referido a nível de voo, com 1013,2 hPa.
No Brasil se voa com QFE?
Os procedimentos de ajuste de altímetro do AIP Brasil (ENR 1.7) usam só o QNH e o 1013,2 hPa. O QFE aparece nas definições da ICA 100-12, mas nenhum procedimento brasileiro consultado manda voar com ele.
Fontes e referências
- ICA 100-12, Regras do Ar (DECEA), edição 2024: Art. 7 (abreviaturas), Art. 22, Art. 104 e Art. 127, e Anexo VII (definições de Altitude de Transição e de Nível de Voo).
- ICA 100-37, Serviços de Tráfego Aéreo (DECEA), vigência 27/11/2025: Art. 322.
- MCA 100-16, Fraseologia de Tráfego Aéreo (DECEA), edição 2025: Arts. 12, 29 e 114.
- MCA 100-27, Glossário ATM (DECEA), edição 2025: Anexo III, verbetes AJUSTE A ZERO, AJUSTE DE ALTÍMETRO, ALTITUDE DE TRANSIÇÃO e NÍVEL DE TRANSIÇÃO.
- AIP Brasil, ENR 1.7, Procedimentos para ajuste de altímetro, eAIP AIRAC A 17-2026, efetivo 03/09/2026, acesso em 28/09/2026: https://aisweb.decea.mil.br/eaip/A%2017-2026_2026_09_03/eAIP/ENR%201.7-pt-BR.html
Um altímetro bem ajustado é parte do briefing, tanto quanto o combustível e a meteorologia. O AeroCopilot ajuda a montar o briefing pré-voo com dados oficiais do DECEA; junto com ele, confira nas cartas do aeródromo de partida a altitude de transição antes de decolar.