O USGS (United States Geological Survey) implementou em 20 de março de 2026 um formato atualizado para os Volcano Observatory Notices to Aviation (VONAs), incorporando terminologia aeronáutica padronizada pela ICAO em letras maiúsculas e, pela primeira vez, versões legíveis por máquina (machine-readable) para integração automática em sistemas de planejamento de voo. A mudança afeta diretamente pilotos que operam em rotas próximas aos 161 vulcões monitorados pelos cinco observatórios vulcânicos norte-americanos, incluindo rotas ETOPS e transpacíficas frequentadas por operadores brasileiros.
Neste artigo
- O que mudou nos alertas VONA do USGS?
- Como funciona o sistema de cores VONA?
- O que são as versões machine-readable?
- Qual a frequência de atualização dos novos VONAs?
- Como os VONAs se integram ao sistema SIGMET/VAAC?
- Qual o impacto para pilotos brasileiros?
- Perguntas frequentes
- Fontes e referências
O que mudou nos alertas VONA do USGS?
O USGS reformulou a estrutura dos VONAs para alinhar a linguagem ao padrão ICAO, especificamente ao Doc 9766 (Manual on the International Airways Volcano Watch). As principais mudanças são:
- Terminologia aeronáutica em maiúsculas — campos como altitude de nuvem de cinzas, direção de dispersão e nível de voo agora seguem a convenção de texto em caixa alta utilizada em NOTAM e SIGMET
- Campos estruturados — informações como coordenadas do vulcão, código ICAO da região, nível de alerta e hora da observação passam a ocupar campos fixos padronizados
- Versão machine-readable (CAP/XML) — cada VONA emitido agora possui uma versão paralela em formato Common Alerting Protocol (CAP) e XML, permitindo que sistemas de despacho e EFBs importem dados automaticamente
- Referência cruzada ao código ICAO do vulcão — cada alerta inclui o identificador alfanumérico único do vulcão conforme o catálogo ICAO/Smithsonian (ex.: AVO-1102-13 para o Monte Redoubt)
Definição: VONA (Volcano Observatory Notice to Aviation) é o comunicado emitido por um observatório vulcânico para alertar a aviação sobre atividade vulcânica significativa. É o ponto de origem da cadeia de informação que alimenta SIGMETs vulcânicos e NOTAMs.
Antes dessa atualização, os VONAs eram emitidos em texto livre sem padronização rígida, o que exigia interpretação manual por meteorologistas dos VAACs (Volcanic Ash Advisory Centres) antes de gerar os produtos operacionais utilizados por pilotos e despachantes.
Como funciona o sistema de cores VONA?
O sistema de alertas vulcânicos para aviação utiliza quatro níveis de código de cor, definidos pela ICAO e mantidos pelo USGS para os vulcões sob sua jurisdição:
| Código de Cor | Significado | Ação esperada |
|---|---|---|
| GREEN | Vulcão em estado normal, não eruptivo | Nenhuma restrição operacional |
| YELLOW | Sinais de atividade acima do nível de base; possível evolução para erupção | Monitoramento; verificar NOTAMs antes do voo |
| ORANGE | Atividade elevada com potencial de erupção iminente; possível emissão de cinzas | Planejar rotas alternativas; monitorar SIGMETs |
| RED | Erupção em curso ou iminente com emissão significativa de cinzas na atmosfera | Evitar espaço aéreo afetado; seguir SIGMET vulcânico ativo |
O novo formato não altera esses códigos — eles seguem o padrão ICAO já existente. O que muda é a estrutura e a frequência com que os alertas são atualizados.
O que são as versões machine-readable?
A versão machine-readable é a mudança mais significativa para a operação aérea. Cada VONA agora é publicado simultaneamente em três formatos:
- Texto padrão (legível por humanos) — o formato tradicional, agora com campos padronizados em maiúsculas
- CAP (Common Alerting Protocol) — padrão OASIS utilizado por sistemas de alerta em emergências, compatível com plataformas de gestão de crises
- XML estruturado — formato que permite ingestão direta por sistemas de planejamento de voo, EFBs (Electronic Flight Bags) e plataformas de despacho
Na prática, isso significa que fabricantes de EFBs como ForeFlight, Garmin Pilot e Jeppesen FliteDeck podem integrar alertas vulcânicos diretamente em seus mapas e briefings sem depender de parsing manual de texto livre. Para o piloto na linha, a informação sobre atividade vulcânica chegará mais rápido e com menos risco de erro de interpretação.
Definição: CAP (Common Alerting Protocol) é um padrão internacional de formato de dados para troca de alertas públicos entre sistemas. No contexto aeronáutico, permite que alertas vulcânicos sejam automaticamente processados por EFBs e sistemas de despacho.
Qual a frequência de atualização dos novos VONAs?
O USGS estabeleceu frequências mínimas de atualização vinculadas ao código de cor ativo:
| Código de Cor | Frequência mínima de atualização |
|---|---|
| RED | Diária (ou mais frequente conforme evolução) |
| ORANGE | Semanal |
| YELLOW | Quinzenal |
| GREEN | Sob demanda (mudança de status) |
Antes da reformulação, não havia frequência mínima obrigatória. Um vulcão em nível ORANGE poderia permanecer semanas sem atualização caso não houvesse mudança perceptível na atividade. Agora, mesmo que o status se mantenha, o observatório deve emitir um VONA confirmando a condição no intervalo definido.
Essa previsibilidade é relevante para despachantes e pilotos que planejam rotas com dias de antecedência — especialmente em operações ETOPS transpacíficas onde alternativas de rota são limitadas.
Como os VONAs se integram ao sistema SIGMET/VAAC?
A cadeia de informação vulcânica para aviação segue um fluxo bem definido:
- Observatório vulcânico (USGS/AVO, HVO, CVO, etc.) detecta atividade e emite o VONA
- VAAC responsável (Washington ou Anchorage, para vulcões dos EUA) recebe o VONA e, se houver cinzas em altitude, emite um Volcanic Ash Advisory (VAA)
- Centro meteorológico (MWO) emite o SIGMET vulcânico com base no VAA
- NOTAM é publicado para o espaço aéreo afetado
- Pilotos e despachantes acessam SIGMET e NOTAM nos briefings operacionais
O novo formato machine-readable acelera a etapa 1→2. Os VAACs de Washington e Anchorage já adaptaram seus sistemas para ingerir automaticamente os VONAs em CAP/XML, reduzindo o tempo entre a emissão do VONA e a publicação do VAA.
Para pilotos brasileiros operando rotas para a América do Norte ou transpacíficas via ETOPS, o VAAC de Washington é a referência principal. Rotas para o Alasca ou cruzando o Pacífico Norte envolvem o VAAC de Anchorage.
Qual o impacto para pilotos brasileiros?
Operadores brasileiros que voam para América do Norte, Caribe e rotas ETOPS transpacíficas são os mais diretamente afetados. Cenários práticos incluem:
- Rotas GRU–MIA, GIG–JFK, GRU–LAX — passam por áreas de influência do VAAC de Washington; erupções no Caribe ou América Central (ex.: Soufrière Hills, Fuego) geram VONAs que alimentam SIGMETs nessas rotas
- Rotas transpacíficas via ETOPS — vulcões do Alasca (Redoubt, Pavlof, Shishaldin) são monitorados pelo AVO do USGS; erupções frequentes afetam corredores NOPAC e PACOTS
- Despacho e planejamento — a versão machine-readable permite que sistemas de despacho incorporem alertas vulcânicos automaticamente no cálculo de rotas alternativas
Do ponto de vista do cockpit, a principal mudança é que a informação vulcânica tende a chegar ao briefing pré-voo de forma mais consistente e padronizada. Pilotos que utilizam EFBs com integração de dados meteorológicos verão alertas vulcânicos aparecerem com mais rapidez e precisão geográfica.
Perguntas frequentes
Os VONAs substituem os SIGMETs vulcânicos?
Não. VONAs são produtos de observatórios vulcânicos e servem como fonte primária de informação para os VAACs. O SIGMET vulcânico continua sendo o produto operacional que o piloto deve consultar para restrições de espaço aéreo. O VONA alimenta a cadeia, mas não a substitui.
Pilotos podem acessar os VONAs diretamente?
Sim. Os VONAs são públicos e disponíveis no site do USGS Volcano Hazards Program. Com o novo formato machine-readable, a tendência é que EFBs passem a exibir VONAs integrados ao briefing meteorológico, embora isso dependa de atualização dos aplicativos.
A mudança afeta o treinamento de pilotos?
Indiretamente. A padronização da terminologia facilita o entendimento dos alertas, mas não altera os procedimentos de resposta a cinzas vulcânicas previstos nos manuais de operação. Pilotos devem continuar seguindo os procedimentos de volcanic ash encounter do fabricante da aeronave e as orientações do SIGMET ativo.
Outros países adotarão o mesmo formato?
O padrão CAP/XML do USGS segue recomendações da ICAO e da WMO (Organização Meteorológica Mundial). Outros observatórios membros do IAVW (International Airways Volcano Watch) podem adotar formatos similares, mas a implementação depende de cada Estado. Observatórios na Islândia (IMO), Japão (JMA) e Indonésia (PVMBG) já utilizam formatos parcialmente estruturados.
Fontes e referências
- USGS to Launch Updated Aviation-Focused Volcano Notices — March 2026 — USGS Volcano Hazards Program, março de 2026
- ICAO Doc 9766 — Manual on the International Airways Volcano Watch — ICAO
- Volcanic Ash Advisory Centre (VAAC) Washington — NOAA/NESDIS
- IAVW — International Airways Volcano Watch — ICAO
O que observar
A padronização dos VONAs pelo USGS representa um avanço na velocidade e na confiabilidade da cadeia de informação vulcânica para aviação. Para pilotos brasileiros em rotas internacionais, o ganho prático está na integração automática desses alertas em ferramentas de planejamento e EFBs. Acompanhe se outros observatórios do IAVW adotam o formato CAP/XML e se os sistemas de despacho e EFBs utilizados pela sua operadora já processam os novos VONAs estruturados.
