A EASA incluiu dois novos riscos ao portfólio de segurança do EPAS 2026 (European Plan for Aviation Safety, 15ª edição): combustíveis sintéticos de turbina (SATF) fora de especificação em operações e incêndios em voo em áreas inacessíveis da aeronave. A adição ocorre em um momento em que o Brasil expande seu programa de bioquerosene (ProBioQAV) e a Europa implementa mandatos obrigatórios de SAF — levantando a pergunta sobre a preparação dos protocolos de qualidade para lidar com blends cada vez mais complexos.
Neste artigo
- O que é o EPAS e por que esses riscos foram adicionados?
- Risco SI-0060: combustível sintético fora de especificação
- Risco SI-9011: incêndios em áreas inacessíveis
- O que é SATF e como difere do SAF convencional?
- O cenário brasileiro: ProBioQAV e a cadeia de combustível
- EASA SIB 2025-01: o alerta que precedeu o EPAS
- Impacto para pilotos e operadores
- Perguntas frequentes
- Fontes e referências
O que é o EPAS e por que esses riscos foram adicionados?
O European Plan for Aviation Safety (EPAS) é o documento estratégico de segurança da EASA, publicado anualmente, que identifica os riscos mais relevantes para a aviação europeia e define ações para mitigá-los. A 15ª edição (EPAS 2026) contém 129 ações, das quais 15 são novas, e concluiu 31 ações do ciclo anterior.
A adição de dois novos riscos ao portfólio não é rotineira — significa que a EASA identificou evidências suficientes de que essas ameaças atingiram um nível de probabilidade e severidade que exige monitoramento e ação coordenada. Esses riscos passam a integrar o Safety Risk Portfolio (SRP) e orientam investimentos, regulamentações e inspeções nos próximos ciclos.
Risco SI-0060: combustível sintético fora de especificação
O novo risco SI-0060 aborda especificamente a presença de Synthetic Aviation Turbine Fuels (SATF) fora de especificação na cadeia de abastecimento. Combustíveis sintéticos incluem:
- SAF (Sustainable Aviation Fuel) produzido por rotas como HEFA, Fischer-Tropsch e ATJ
- e-fuels (Power-to-Liquid) produzidos a partir de hidrogênio verde e CO₂ capturado
- Co-processed fuels — combustíveis fósseis processados junto com matéria-prima renovável
O risco emerge porque a diversificação de fontes e processos de produção aumenta a complexidade da cadeia de qualidade. Um combustível "SAF" que atende à especificação ASTM D7566 em um blend de 50% pode comportar-se de forma diferente quando misturado com Jet A-1 de outra origem ou quando armazenado sob condições não previstas na certificação original.
A EASA identificou que os protocolos atuais de controle de qualidade nos aeroportos foram projetados para uma cadeia de combustível relativamente homogênea (Jet A-1 de petróleo). Com a introdução de blends cada vez mais variados, há risco de que lotes fora de especificação passem pelos controles sem detecção.
Risco SI-9011: incêndios em áreas inacessíveis
O segundo novo risco, SI-9011, trata de incêndios em compartimentos da aeronave onde a tripulação não tem acesso para detecção visual ou combate direto. Isso inclui:
- Porão de carga (lower cargo compartment)
- Áreas de isolamento térmico entre fuselagem e revestimento
- Compartimentos de equipamentos eletrônicos (E/E bay)
- Espaços atrás de painéis de cabine
A classificação como novo risco reflete o aumento de incidentes envolvendo baterias de lítio em bagagens, equipamentos eletrônicos e carga, combinado com a dificuldade de detecção precoce em áreas sem acesso da tripulação. Sistemas de detecção de fumaça e supressão automática (Halon/HFC) existem, mas a EASA avalia que o perfil de risco mudou com o volume crescente de dispositivos com bateria de lítio transportados.
O que é SATF e como difere do SAF convencional?
| Tipo | Processo | Matéria-prima | Status |
|---|---|---|---|
| HEFA | Hidroprocessamento | Óleos vegetais, gordura animal | Aprovado ASTM D7566 (até 50%) |
| FT-SPK | Fischer-Tropsch | Biomassa, gás natural | Aprovado ASTM D7566 (até 50%) |
| ATJ | Alcohol-to-Jet | Etanol, isobutanol | Aprovado ASTM D7566 (até 50%) |
| e-fuel (PtL) | Power-to-Liquid | H₂ verde + CO₂ | Em certificação |
| Co-processed | Refino conjunto | Petróleo + biomassa | Aprovado ASTM D1655 (até 5%) |
O termo SATF no contexto do EPAS engloba todos esses tipos. O risco não está no SAF certificado em si — que passa por testes rigorosos — mas na cadeia de custódia: mistura em tanques de aeroporto, armazenamento prolongado, contaminação cruzada e blends não certificados que podem surgir à medida que a produção se descentraliza.
O cenário brasileiro: ProBioQAV e a cadeia de combustível
O Brasil está construindo sua cadeia de SAF por meio de múltiplas iniciativas:
- ProBioQAV — programa da ANP para incentivar a produção e uso de bioquerosene de aviação
- Petrobras — produção de bio-QAV em refinarias brasileiras, com metas crescentes
- RenovaBio — programa de créditos de descarbonização aplicável à aviação
- Meta CORSIA — compromisso brasileiro com a compensação de emissões de CO₂ da aviação internacional
A pergunta que o EPAS 2026 levanta para o Brasil: os protocolos de controle de qualidade de combustível nos aeroportos brasileiros estão preparados para o aumento de blends sintéticos? A cadeia de distribuição de QAv no Brasil já enfrenta desafios logísticos — distâncias continentais, dependência de poucas refinarias, transporte por dutos e caminhões-tanque. Adicionar a complexidade de múltiplas fontes e blends exige atualização de procedimentos, treinamento de equipes e investimento em laboratórios de análise.
A ANAC, como autoridade que frequentemente adota recomendações da EASA como referência, provavelmente acompanhará as ações decorrentes do SI-0060 nos próximos ciclos regulatórios.
EASA SIB 2025-01: o alerta que precedeu o EPAS
Antes de incluir o risco no EPAS 2026, a EASA já havia publicado o Safety Information Bulletin (SIB) 2025-01, intitulado "Risks Related to Out of Specification Aviation Turbine Fuels". O SIB documentou casos de:
- Combustível contaminado com substâncias incompatíveis
- Degradação de propriedades após armazenamento prolongado
- Incompatibilidade entre aditivos de diferentes fornecedores
- Blend de SAF com Jet A-1 resultando em características fora da faixa ASTM
O SIB recomendou que operadores e aeroportos revisem seus procedimentos de recebimento, armazenamento e abastecimento de combustível, com atenção especial a lotes mistos e combustíveis de fontes não habituais.
Impacto para pilotos e operadores
Procedimentos pré-voo. Pilotos devem manter a atenção às condições de abastecimento reportadas pela operação de solo. Embora o piloto não analise combustível quimicamente, discrepâncias em cor, odor ou relatórios do fuel receipt são indicadores que devem ser reportados.
Incêndios em voo. O risco SI-9011 reforça a importância do treinamento recorrente em procedimentos de combate a incêndio, particularmente os cenários de fumaça de origem desconhecida ou incêndio em porão de carga com indicação apenas pelo sistema de detecção.
Gestão de combustível. Com a diversificação de fontes de SAF, operadores que abastecem em múltiplos aeroportos podem receber blends diferentes em cada parada. O planejamento de combustível deve considerar a possibilidade de variações de densidade e poder calorífico entre lotes.
Perguntas frequentes
O SAF é perigoso?
Não. O SAF certificado conforme ASTM D7566, quando misturado dentro dos limites aprovados (até 50%), é seguro e já alimenta milhares de voos comerciais. O risco identificado pela EASA refere-se a combustíveis fora de especificação — não ao SAF certificado.
O Brasil já usa SAF em voos comerciais?
O Brasil está em fase inicial de adoção. A Petrobras produz bio-QAV em escala piloto e o programa ProBioQAV da ANP define metas crescentes. Voos com SAF já foram realizados em caráter demonstrativo, mas a produção em escala comercial ainda está em desenvolvimento.
O que fazer se eu suspeitar de problema com combustível?
Reporte imediatamente à operação de solo e registre a ocorrência. Discrepâncias em cor, odor ou propriedades do combustível devem ser comunicadas antes do abastecimento ou, se identificadas após, antes do acionamento dos motores.
A ANAC vai adotar as recomendações da EASA?
A ANAC historicamente acompanha recomendações de segurança da EASA e da FAA. Embora não haja obrigação automática, a tendência é que o regulador brasileiro incorpore orientações similares em futuros ciclos do PSOE-ANAC (programa de segurança operacional).
Fontes e referências
EASA — European Plan for Aviation Safety (EPAS) 2026, 15ª edição (easa.europa.eu); EASA — SIB 2025-01: "Risks Related to Out of Specification Aviation Turbine Fuels" (ad.easa.europa.eu); ASTM International — D7566 (especificação para SAF) e D1655 (especificação para Jet A-1); ANP — Programa ProBioQAV.
Última atualização: Abril 2026. Conteúdo revisado pela equipe editorial AeroCopilot com base em documentos oficiais da EASA e normas técnicas ASTM.
