O painel SIPAER do CENIPA registrou 25 acidentes aeronáuticos na aviação civil brasileira em janeiro de 2026 — o maior número mensal em toda a série histórica disponível no sistema. Em 2024, o Brasil contabilizou 175 acidentes e 153 mortes, sendo o ano com mais ocorrências na última década. A frota de aviação geral cresceu 6,5% entre 2023 e 2024, mas os acidentes cresceram 13%. Este artigo apresenta os dados oficiais, analisa as tendências e aponta uma lacuna importante: o Brasil não publica horas de voo da aviação geral, o que impede o cálculo preciso da taxa de acidentes.
Neste artigo
- Os números: janeiro 2026 e série histórica
- 2024 em contexto: 175 acidentes e 153 mortes
- A frota cresce — e os acidentes crescem mais rápido
- Aviação agrícola: o segmento que puxa os números
- O dado que não existe: horas de voo
- O que o CENIPA faz (e faz bem)
- Perguntas frequentes
- Fontes e referências
Os números
Segundo dados do painel SIPAER do CENIPA, janeiro de 2026 registrou 25 acidentes na aviação civil — o maior valor mensal na série histórica disponibilizada pelo sistema.
Para contextualizar, a evolução anual de acidentes na última década:
| Ano | Acidentes | Mortes | Observação |
|---|---|---|---|
| 2022 | 138 | 49 | — |
| 2023 | 155 | 77 | +12% em acidentes |
| 2024 | 175 | 153 | +13% em acidentes, inclui Voepass (62 mortes) |
| 2025 | ~190 (projeção) | — | Dados parciais |
| Jan/2026 | 25 | — | Recorde mensal da série SIPAER |
O número de janeiro de 2026 supera o recorde anterior na série de 10 anos. Se o ritmo de janeiro se mantivesse ao longo do ano, o Brasil teria 300 acidentes em 2026 — cenário que, por ora, é apenas uma extrapolação aritmética, não uma previsão.
2024 em contexto
O ano de 2024 merece análise separada por causa do acidente do Voepass (PS-VPB) em Vinhedo, São Paulo, que matou 62 pessoas em agosto. Se isolarmos esse evento:
| Métrica | Com Voepass | Sem Voepass |
|---|---|---|
| Mortes em 2024 | 153 | 91 |
| Comparação com 2023 | +99% | +18% |
Mesmo sem o Voepass, as 91 mortes representam o maior número desde 2016 (104 mortes). A tendência de alta é real e não depende de um único evento catastrófico.
A frota cresce — e os acidentes crescem mais rápido
Segundo a ABAG (Associação Brasileira de Aviação Geral), a frota executiva e de aviação geral brasileira cresceu 6,5% entre 2023 e 2024, atingindo 11.239 aeronaves.
O problema: os acidentes cresceram 13% no mesmo período (de 155 para 175). Isso significa que, mesmo quando normalizamos pelo tamanho da frota, a tendência é de alta:
| Ano | Acidentes | Frota (aprox.) | Taxa por 1.000 aeronaves |
|---|---|---|---|
| 2022 | 138 | ~9.500 | 14,5 |
| 2023 | 155 | ~10.000 | 15,5 |
| 2024 | 175 | ~10.551 | 16,6 |
A taxa bruta por aeronave registrada subiu 14% em dois anos. Isso não é apenas mais aviões voando — proporcionalmente, há mais acidentes por aeronave.
Aviação agrícola
A aviação agrícola é o segmento que mais contribui para os números. Dados do SIPAER:
| Ano | Acidentes (aviação agrícola) | Variação |
|---|---|---|
| 2023 | 43 | — |
| 2024 | 56 | +30% |
O estado de Goiás, que possui a quinta maior frota de aviões do país, registrou 314 acidentes em 10 anos — com destaque para operações aeroagrícolas na região do agronegócio.
A pressão por produtividade na safra, combinada com operações em baixa altitude e condições meteorológicas variáveis, cria um perfil de risco distinto. A aviação agrícola opera em margens mais estreitas de segurança por natureza da atividade.
O dado que não existe
Aqui está a lacuna mais importante desta análise: o Brasil não publica dados de horas de voo da aviação geral.
Em qualquer análise de segurança aeronáutica, a métrica padrão internacional é a taxa de acidentes por milhão de horas de voo (ou por 100.000 horas). É assim que a IATA mede a segurança das companhias aéreas. É assim que a FAA mede a segurança da aviação geral americana. É assim que a ICAO compara países.
Sem horas de voo, fica impossível responder à pergunta fundamental: a aviação geral brasileira está ficando mais ou menos segura?
O que sabemos:
- Números absolutos de acidentes estão subindo — verificado
- Taxa por aeronave registrada está subindo — calculável, e mostra alta de 14%
- Taxa por hora de voo — incalculável com dados públicos
A ABAG afirmou que a "taxa por milhão de horas de voo permanece estável." Não temos como confirmar nem negar essa afirmação, porque os dados de horas de voo não são públicos. Pode ser verdade — se cada aeronave estiver voando mais horas por ano (recuperação pós-COVID), a taxa por hora pode estar estável mesmo com mais acidentes absolutos. Mas também pode não ser.
Essa lacuna não é uma falha de ninguém em particular — é uma oportunidade. A publicação regular de horas de voo da aviação geral permitiria ao setor, aos reguladores e ao público avaliar a segurança com a mesma precisão que a aviação comercial já tem.
O que o CENIPA faz
O CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), subordinado à FAB, é reconhecido internacionalmente pela qualidade de suas investigações. O painel SIPAER — de onde vêm todos os dados deste artigo — é uma ferramenta pública de transparência que poucos países oferecem com o mesmo nível de detalhe.
É importante ressaltar: a missão do CENIPA é prevenção, não punição. As investigações do CENIPA buscam identificar fatores contribuintes para evitar que acidentes se repitam — não para responsabilizar pessoas ou organizações. Esse princípio, alinhado ao Anexo 13 da ICAO, é um dos pilares da segurança aeronáutica mundial.
O aumento nos números absolutos de acidentes não diminui a qualidade do trabalho do CENIPA. Ao contrário — os dados que o CENIPA publica são exatamente o que permite análises como esta. A transparência é um ativo, não um problema.
Perguntas frequentes
Quantos acidentes aéreos o Brasil teve em janeiro de 2026?
O painel SIPAER do CENIPA registrou 25 acidentes na aviação civil em janeiro de 2026, o maior número mensal na série histórica disponível no sistema.
O Brasil está ficando mais perigoso para voar?
Os dados mostram que os números absolutos de acidentes e a taxa por aeronave registrada estão subindo. Porém, sem dados públicos de horas de voo, não é possível calcular a taxa por hora de voo — a métrica padrão internacional de segurança. O quadro completo exige dados que hoje não estão disponíveis publicamente.
Por que a aviação agrícola tem tantos acidentes?
A aviação agrícola opera em baixa altitude, com manobras repetitivas, próxima a obstáculos (fios, torres, árvores) e sob pressão de produtividade da safra. Essas condições criam um perfil de risco inerentemente mais alto que outros segmentos.
O acidente do Voepass distorce os números de 2024?
Parcialmente. As 62 mortes do Voepass representam 40,5% do total de 153 mortes em 2024. Porém, mesmo excluindo o Voepass, as 91 mortes restantes são o maior número desde 2016 (104 mortes). A tendência de alta em mortes independe de um único evento.
O CENIPA divulga esses dados publicamente?
Sim. O painel SIPAER (painelsipaer.cenipa.fab.mil.br) é uma ferramenta pública com dados detalhados de acidentes, incidentes e ocorrências aeronáuticas. Os dados utilizados nesta análise são todos de fontes públicas do CENIPA.
Fontes e referências
- CENIPA — Painel SIPAER (painelsipaer.cenipa.fab.mil.br)
- ABAG — Anuário Brasileiro de Aviação Geral (abag.org.br)
- ANAC — Dados e Estatísticas (gov.br/anac)
- ICAO — Anexo 13: Investigação de Acidentes e Incidentes Aeronáuticos
- IATA — Safety Report 2025 (referência metodológica para taxas por hora de voo)
O AeroCopilot acredita que transparência e dados são fundamentais para a segurança aeronáutica. Todas as nossas ferramentas de briefing, NOTAM e meteorologia são projetadas para ajudar pilotos a tomar decisões mais seguras — antes e durante cada voo.
