A EASA publicou em 20 de março de 2026 a PAD 26-035 (Proposed Airworthiness Directive) exigindo inspeções repetitivas na carenagem externa do motor (outer barrel) de aeronaves Airbus A330 equipadas com motores Rolls-Royce Trent 700 (família RB.211-71). A condição insegura identificada: trincas no lip skin, no reforçador top hat stiffener e no bulkhead dianteiro — que, combinadas com uma possível ruptura do tubo piccolo — podem resultar no desprendimento do outer barrel em voo, causando dano ao motor ou redução do controle da aeronave.
Neste artigo
- O que a PAD 26-035 determina?
- Qual é a condição insegura na nacelle?
- Quais aeronaves e motores são afetados?
- Qual o impacto para operadores brasileiros?
- O que observar?
- Perguntas frequentes
- Fontes e referências
O que a PAD 26-035 determina?
A PAD propõe uma AD mandatória com inspeções repetitivas baseadas nos Service Bulletins Airbus A330-71-3044 e Rolls-Royce RB.211-71-AL162. As aeronaves são divididas em dois grupos conforme a configuração de peças instaladas:
| Grupo | Critério | Ação requerida |
|---|---|---|
| Grupo 1 | Aeronaves sem modificação RB.211-71-K989 instalada e sem SB A330-71-3032 incorporado | Inspeção obrigatória antes de a peça afetada atingir 8.000 ciclos de voo, com inspeções repetitivas subsequentes |
| Grupo 2 | Aeronaves com peças conformes (modificação K989 ou SB 3032 já incorporados) | Regime de monitoramento — sem inspeção imediata, mas acompanhamento conforme instruções do fabricante |
A partir da data efetiva da AD, fica proibida a instalação de outer barrels com part number SJ30820 e serial number até 3012, salvo se já incorporada a modificação Rolls-Royce K989.
Qual é a condição insegura na nacelle?
O outer barrel é o componente aerodinâmico externo da nacelle do motor — a carenagem que forma a entrada de ar e envolve o fan case. A condição insegura envolve três falhas estruturais que podem ocorrer em sequência ou simultaneamente:
- Trincas no lip skin — a "boca" da nacelle, exposta ao fluxo de ar direto e a cargas aerodinâmicas durante toda a operação.
- Trincas no top hat stiffener — reforçador estrutural interno que mantém a rigidez do outer barrel.
- Trincas no forward bulkhead — parede estrutural que separa o outer barrel do restante da nacelle.
Quando essas degradações combinam-se com a ruptura do tubo piccolo — componente do sistema anti-ice que distribui ar quente pelo lip skin — a integridade estrutural do outer barrel é comprometida a ponto de permitir seu desprendimento em voo.
Definição: O tubo piccolo é um duto perfurado instalado internamente no lip skin da nacelle. Ar quente extraído do motor (bleed air) circula por esse tubo para impedir a formação de gelo na entrada de ar. Sua ruptura não apenas elimina a proteção anti-ice, mas remove um elemento que contribui para a rigidez estrutural do conjunto.
Quais aeronaves e motores são afetados?
A PAD aplica-se a seis variantes do A330 equipadas com motores Trent 700:
| Modelo | Configuração típica |
|---|---|
| A330-243 | Passageiros, longo curso |
| A330-243F | Cargueiro |
| A330-341 | Passageiros, três classes |
| A330-342 | Passageiros, variante de alta densidade |
| A330-343 | Passageiros, configuração estendida |
| A330-743L | BelugaXL (transporte de fuselagem) |
A peça afetada é o outer barrel com P/N SJ30820 e serial numbers até 3012. Aeronaves que já incorporaram a modificação Rolls-Royce RB.211-71-K989 estão excluídas.
O motor Trent 700 (designação RB.211-71) é a única opção de motorização para o A330ceo — diferente do A330neo, que utiliza o Trent 7000. Esta PAD não se aplica ao A330neo.
Qual o impacto para operadores brasileiros?
A LATAM Airlines opera A330-200 e A330-300 em rotas domésticas de alta densidade e internacionais. A Azul Linhas Aéreas também utiliza A330-200 e A330-900neo — porém a PAD não afeta os neo. Ambas as frotas A330ceo com Trent 700 devem verificar a configuração de peças instaladas e a incorporação da modificação K989.
O threshold de 8.000 ciclos de voo é particularmente relevante para aeronaves de alta utilização em rotas domésticas, onde o ciclo de pousos e decolagens é mais frequente do que em operações de longo curso. Um A330 operando rota doméstica no Brasil pode acumular ciclos significativamente mais rápido do que um equivalente em rota transatlântica.
Para tripulações, o impacto operacional inclui possíveis inspeções não programadas que podem retirar aeronaves da linha durante o período de conformidade.
O que observar?
- Acompanhar a finalização da AD pela EASA — a PAD 26-035 é uma proposta; a AD final pode incluir requisitos adicionais ou prazos revisados.
- Verificar a configuração da frota A330ceo — operadores devem confirmar se a modificação RB.211-71-K989 está incorporada nas nacelles de suas aeronaves.
- Monitorar o ANAC para validação — a ANAC validará a AD europeia para a frota brasileira, possivelmente com prazos adaptados.
- Atenção ao acúmulo de ciclos em rotas domésticas — o threshold de 8.000 FC pode ser atingido mais rapidamente em operações de curto curso.
Perguntas frequentes
A PAD afeta o A330neo?
Não. O A330neo utiliza o motor Trent 7000, não o Trent 700. A PAD 26-035 aplica-se exclusivamente a variantes do A330ceo com motores da família RB.211-71.
O que acontece se o outer barrel se desprender em voo?
O desprendimento da carenagem externa pode causar dano direto ao motor (ingestão de detritos, desequilíbrio aerodinâmico) e redução do controle da aeronave, especialmente em caso de impacto com superfícies de controle ou fuselagem.
Quantos ciclos um A330 doméstico acumula por ano?
Depende da operação. Um A330 em rota doméstica de alta frequência (ex.: GRU–GIG, GRU–BSB) pode acumular 1.500 a 2.000 ciclos por ano. O threshold de 8.000 FC seria atingido em 4 a 5 anos de operação intensa.
A inspeção imobiliza a aeronave?
A EASA não especificou na PAD se a inspeção pode ser realizada em check de linha ou requer check em hangar. Os Service Bulletins A330-71-3044 e RB.211-71-AL162 detalham o escopo — operadores devem consultar esses documentos para planejar a manutenção.
