O Aeroporto Campo de Marte (SBMT), em São Paulo, inaugurou em 19 de março de 2026 a Fase 1B de sua modernização, com nova taxiway segregada da pista, área de segurança de fim de pista (RESA), repavimentação completa da pista 12/30, novo sistema PAPI e iluminação de última geração. O investimento total da concessionária PAX Aeroportos (grupo XP Infra IV / PRS Aeroportos S.A.) soma aproximadamente R$ 120 milhões. O avanço mais relevante: a infraestrutura agora atende aos requisitos para que o DECEA publique procedimentos de aproximação por instrumentos (IFR) — algo que SBMT nunca teve em seus mais de 100 anos de operação.
Neste artigo
- O que foi inaugurado na Fase 1B de Campo de Marte?
- Por que a preparação para IFR é tão significativa?
- Qual é o histórico da concessão e quem é a PAX Aeroportos?
- Como Campo de Marte opera hoje em números?
- Qual o impacto para a malha aérea de São Paulo?
- E os eVTOLs? Campo de Marte como vertiporto do futuro
- Qual é o cronograma realista para o IFR funcionar?
- Perguntas frequentes
- Fontes e referências
O que foi inaugurado na Fase 1B de Campo de Marte?
O Ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, participou da cerimônia de inauguração das obras concluídas pela PAX Aeroportos. A Fase 1B representa o pacote mais denso de intervenções físicas desde o início da concessão e abrange sete frentes simultâneas.
Escopo completo da Fase 1B
| Intervenção | Descrição | Impacto operacional |
|---|---|---|
| Nova taxiway | Pista de táxi segregada da pista de pouso/decolagem | Elimina conflito entre aeronaves na pista e em táxi; reduz risco de incursão |
| RESA | Runway End Safety Area — área de segurança de fim de pista | Atende padrão ICAO para segurança em pousos longos ou arremetidas |
| Repavimentação da pista 12/30 | Recapeamento completo dos ~1.600 m da pista principal | Melhora aderência, elimina irregularidades, prolonga vida útil |
| Novo PAPI | Indicador de Trajetória de Aproximação de Precisão, sistema luminoso | Referência visual precisa de rampa de aproximação, essencial para IFR |
| Iluminação e sinalização | Balizamento de pista e taxiway com tecnologia de última geração | Operação noturna mais segura; compatibilidade com procedimentos instrumentais |
| Drenagem | Requalificação completa do sistema de drenagem | Elimina alagamentos que fechavam a pista em chuvas fortes |
| Reparos em taxiways existentes | Correção estrutural das pistas de táxi anteriores | Pavimento uniforme em toda a área de movimento |
Definição: RESA (Runway End Safety Area) é uma área retangular simétrica além do fim da pista, preparada para reduzir danos caso uma aeronave ultrapasse a cabeceira no pouso ou não consiga decolar a tempo. A ICAO recomenda 240 m de comprimento por toda a largura da faixa de pista. No Brasil, o RBAC 154 da ANAC estabelece os requisitos dimensionais.
A construção da nova taxiway é particularmente relevante. Até a conclusão da Fase 1B, aeronaves que pousavam em SBMT precisavam utilizar a própria pista para taxiar até os pátios — uma condição operacional que impedia pousos e decolagens simultâneos e gerava gargalos nos horários de pico. Com a taxiway segregada, a pista 12/30 fica liberada exclusivamente para operações de pouso e decolagem, aumentando a capacidade efetiva do aeródromo sem necessidade de ampliar a pista.
Por que a preparação para IFR é tão significativa?
Campo de Marte sempre operou exclusivamente em regras de voo visual (VFR). Na prática, isso significa que qualquer degradação de visibilidade — neblina matinal, chuva forte, teto baixo — fecha o aeroporto. Em uma cidade como São Paulo, onde condições meteorológicas adversas são frequentes entre maio e setembro, a limitação VFR resulta em cancelamentos regulares, desvios e imprevisibilidade operacional.
O CEO da PAX Aeroportos, Rogério Prado, resumiu o impacto em declaração durante a inauguração:
"Campo de Marte deixará de ser refém do tempo. Mais segurança, mais regularidade, mais previsibilidade."
O que muda com IFR em SBMT
| Aspecto | Hoje (VFR only) | Com IFR (após publicação DECEA) |
|---|---|---|
| Mínimos meteorológicos | Visibilidade ≥ 5 km, teto ≥ 1.500 ft (típico VFR) | Visibilidade ≥ 1.600 m, teto ≥ 400 ft (típico não precisão) |
| Operação com neblina | Aeródromo fechado | Aproximações por instrumentos possíveis |
| Previsibilidade | Depende 100% de VMC | Operar em grande parte das condições IMC |
| Regularidade | ~85-90% (estimativa em meses críticos) | Potencial para >95% de regularidade anual |
| Tipo de procedimento esperado | Nenhum | RNAV (GNSS) não precisão — Pista 12 e/ou 30 |
Definição: Procedimento de aproximação por instrumentos não precisão (NPA) fornece guia lateral (curso) sem guia vertical eletrônica contínua. O piloto desce em patamares até a altitude mínima de decisão (MDA). Diferencia-se da aproximação de precisão (ILS Cat I/II/III), que também fornece guia vertical via glide slope. Para SBMT, o procedimento esperado é do tipo RNAV (GNSS), baseado em navegação por satélite.
A infraestrutura entregue na Fase 1B — PAPI, iluminação, RESA e sinalização — compõe o pacote mínimo necessário para que o DECEA inicie o processo de validação de voo e publicação de cartas de procedimento. Sem esses elementos físicos, sequer era possível solicitar a criação de procedimentos instrumentais.
Qual é o histórico da concessão e quem é a PAX Aeroportos?
A concessão de Campo de Marte integra o Bloco Aviação Geral RJ-SP, leiloado na 7ª Rodada de Concessões da ANAC em agosto de 2022. O bloco inclui dois aeroportos dedicados à aviação geral: SBMT (Campo de Marte, São Paulo) e SBJR (Jacarepaguá, Rio de Janeiro). O contrato tem duração de 30 anos.
Cronologia da concessão
| Data | Evento |
|---|---|
| Agosto de 2022 | 7ª Rodada ANAC — leilão do Bloco Aviação Geral RJ-SP |
| 14 de agosto de 2023 | PAX Aeroportos assume operação de SBMT |
| 1º de setembro de 2023 | PAX Aeroportos assume operação de SBJR |
| 2023-2025 | Fase 1A — estudos, projetos executivos, licenças |
| 19 de março de 2026 | Inauguração Fase 1B — obras físicas concluídas |
| 2026-2052 | Fases subsequentes ao longo dos 30 anos de concessão |
A PAX Aeroportos é a concessionária operacional vinculada ao fundo XP Infra IV, gerido pela XP Asset Management, por meio da PRS Aeroportos S.A.. O modelo é típico de concessões aeroportuárias brasileiras recentes: um fundo de infraestrutura capitalizando o investimento enquanto uma SPE (Sociedade de Propósito Específico) executa a operação.
O investimento de R$ 120 milhões refere-se ao montante total comprometido pela concessionária para as fases iniciais de modernização, incluindo a Fase 1B inaugurada e intervenções complementares em andamento. Para um aeródromo que durante décadas recebeu investimentos mínimos sob gestão pública (Infraero), o volume representa uma transformação estrutural.
Como Campo de Marte opera hoje em números?
Campo de Marte é o segundo aeroporto mais movimentado de São Paulo em número de operações (pousos e decolagens) e o principal hub de aviação geral e helicópteros da América Latina.
Perfil operacional de SBMT
| Indicador | Dado |
|---|---|
| ICAO / IATA | SBMT / — |
| Pista | 12/30, ~1.600 m, asfalto (repavimentada em 2026) |
| Operações em 2025 | ~58.818 (média de ~161/dia) |
| Tipo de tráfego | Aviação geral, helicópteros, escolas de voo, operações policiais |
| Unidades baseadas | PM-SP Águia (helicóptero policial), escolas de pilotagem, hangares privados |
| Helicópteros registrados em SP | ~925 (maior frota urbana de helicópteros do mundo) |
| Projeção ANAC (passageiros) | 94 mil → 218 mil até 2052 (mais que o dobro) |
São Paulo concentra a maior frota urbana de helicópteros do planeta, com aproximadamente 925 aeronaves registradas. Campo de Marte funciona como base operacional primária para grande parte dessa frota, além de abrigar o Grupamento de Radiopatrulha Aérea da Polícia Militar de São Paulo — o Águia —, que realiza operações policiais, resgates e transporte aeromédico a partir do aeródromo.
A projeção da ANAC de mais que duplicar o volume de passageiros até 2052 (de 94 mil para 218 mil) reflete a expectativa de que a modernização e o IFR atrairão operações mais regulares, incluindo táxi aéreo e, futuramente, mobilidade aérea urbana (UAM).
Qual o impacto para a malha aérea de São Paulo?
A habilitação de SBMT para operações IFR terá efeitos indiretos sobre a saturada malha aeroportuária paulistana. Atualmente, Congonhas (SBSP) absorve parte das operações de aviação executiva e táxi aéreo que poderiam utilizar Campo de Marte — mas não o fazem pela imprevisibilidade VFR do aeródromo.
Redistribuição esperada
Com IFR operacional, Campo de Marte pode absorver operações que hoje disputam slots em Congonhas:
- Táxi aéreo de asa fixa com destino à capital paulistana poderá planejar SBMT como destino primário, não alternativa
- Aviação executiva ganhará previsibilidade para agendar pousos em SBMT mesmo em dias com previsão meteorológica marginal
- Escolas de voo poderão incluir treinamento de aproximação por instrumentos real (não apenas simulada) em seus currículos
- Helicópteros IFR — ainda raros no Brasil, mas em crescimento — terão procedimentos publicados para operação em condições IMC
A consequência sistêmica é um alívio marginal, porém relevante, na pressão sobre Congonhas. Cada operação de aviação geral que migra de SBSP para SBMT libera um slot para operações comerciais regulares — em um aeroporto que já opera próximo ao limite de capacidade declarada.
E os eVTOLs? Campo de Marte como vertiporto do futuro
A modernização de Campo de Marte ocorre em paralelo com o avanço do ecossistema de mobilidade aérea urbana (UAM) no Brasil. Em fevereiro de 2025, a ANAC autorizou um sandbox regulatório para operações de eVTOL, com participação da UrbanV (operador), PAX Aeroportos (infraestrutura) e Eve Air Mobility (fabricante, subsidiária da Embraer).
Convergência eVTOL + Campo de Marte
| Elemento | Status |
|---|---|
| Sandbox ANAC | Autorizado (fev/2025) — testes em ambiente controlado |
| Parceria UrbanV + PAX | Vertiporto planejado para SBMT |
| Eve Air Mobility (Embraer) | Participante do sandbox; aeronave em fase de certificação |
| Infraestrutura IFR | Fase 1B prepara terreno para operações em condições adversas |
| Demanda | 925 helicópteros em SP = mercado existente para conversão |
A lógica estratégica é clara: Campo de Marte já é o hub de helicópteros de São Paulo. Os eVTOLs substituirão parte dessas operações de helicóptero por aeronaves elétricas mais silenciosas e, potencialmente, mais baratas de operar. A infraestrutura IFR modernizada — iluminação, PAPI, RESA, procedimentos por instrumentos — será aproveitada pelas operações de eVTOL, que também precisarão de capacidade para operar em condições meteorológicas reduzidas.
A presença simultânea da PAX Aeroportos como concessionária do aeródromo e parceira do sandbox de eVTOL não é coincidência. O grupo posiciona SBMT como o primeiro vertiporto integrado do Brasil — um aeródromo convencional que gradualmente incorporará infraestrutura dedicada a aeronaves de pouso e decolagem vertical elétrica.
Qual é o cronograma realista para o IFR funcionar?
A infraestrutura física está pronta. Mas entre a conclusão das obras e a publicação de procedimentos IFR pelo DECEA existe um processo regulatório e técnico que não pode ser abreviado.
Etapas remanescentes para IFR em SBMT
| Etapa | Responsável | Prazo estimado |
|---|---|---|
| Certificação da infraestrutura | ANAC (inspeção e homologação dos sistemas instalados) | 2-4 meses |
| Projeto de procedimento | DECEA (ICA 100-37 — Serviço de Informação Aeronáutica) | 3-6 meses após certificação |
| Validação em voo (flight check) | DECEA / GEIV (Grupo Especial de Inspeção em Voo) | 1-3 meses |
| Publicação em AIP/NOTAM | DECEA | Após validação |
| Total estimado | — | 6-12 meses após certificação ANAC |
O prazo de 6 a 12 meses entre a certificação da infraestrutura pela ANAC e a publicação efetiva dos procedimentos pelo DECEA é consistente com o histórico de outros aeródromos brasileiros que receberam procedimentos RNAV (GNSS). O processo inclui projeto do procedimento, análise de obstáculos, coordenação com o controle de tráfego aéreo (APP-SP) e voo de validação pelo GEIV.
Na melhor hipótese, pilotos poderão utilizar procedimentos IFR em SBMT no quarto trimestre de 2026. Na hipótese conservadora, a publicação ocorre no primeiro semestre de 2027. O entusiasmo é justificado, mas a cautela é necessária: o DECEA opera com cronogramas próprios e a fila de procedimentos pendentes no Brasil é longa.
Perguntas frequentes
Campo de Marte já aceita pousos IFR?
Não. A Fase 1B entregou a infraestrutura física necessária (PAPI, iluminação, RESA), mas os procedimentos de aproximação por instrumentos ainda precisam ser projetados, validados em voo e publicados pelo DECEA. O prazo estimado é de 6 a 12 meses após a certificação da infraestrutura pela ANAC.
Que tipo de procedimento IFR SBMT deve receber?
O mais provável é um procedimento RNAV (GNSS) de não precisão para a pista 12 e/ou 30. Esse tipo de procedimento utiliza navegação por satélite e não requer instalação de equipamentos de solo como ILS. A infraestrutura entregue na Fase 1B (PAPI, iluminação) é compatível com esse tipo de aproximação.
A pista de Campo de Marte vai ser ampliada?
A Fase 1B não inclui ampliação da pista 12/30, que permanece com aproximadamente 1.600 metros. A intervenção foi de repavimentação e adequação do entorno (RESA, drenagem). O comprimento atual é compatível com operações de aviação geral, táxi aéreo e helicópteros, que constituem o perfil de tráfego de SBMT.
Quanto a PAX Aeroportos investiu até agora?
O investimento total comprometido para as fases iniciais de modernização é de aproximadamente R$ 120 milhões, cobrindo SBMT e intervenções associadas ao Bloco Aviação Geral RJ-SP (que inclui também SBJR/Jacarepaguá). A Fase 1B inaugurada em março de 2026 representa a maior parcela de investimento em infraestrutura física.
Quando os eVTOLs começam a operar em Campo de Marte?
Ainda não há data confirmada para operações comerciais de eVTOL em SBMT. O sandbox regulatório da ANAC, autorizado em fevereiro de 2025, permite testes controlados. A certificação de tipo da aeronave (Eve/Embraer) e a regulamentação operacional pela ANAC são pré-requisitos que devem avançar ao longo de 2026-2028.
Fontes e referências
- Ministério de Portos e Aeroportos — Concessão do Bloco Aviação Geral RJ-SP, 7ª Rodada ANAC. gov.br/portos-e-aeroportos
- PAX Aeroportos — Comunicação institucional sobre a Fase 1B. paxaeroportos.com.br
- DECEA — Regulamentação de procedimentos de aproximação por instrumentos (ICA 100-37). decea.mil.br
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— Capitão AeroNews
