Os movimentos em aeródromos da Força Aérea Brasileira caíram de 196.709 em 2023 para 160.398 em 2025 — uma redução de 18,45% em dois anos consecutivos, segundo o Anuário Estatístico de Tráfego Aéreo 2025 do CGNA/DECEA. As horas de voo anuais por piloto recuaram de 155 em 2014 para estimadas 80 em 2025 — praticamente metade. A frota encolheu de 526 para 319 aeronaves. Em paralelo, a evasão de pilotos para companhias aéreas disparou: 59 baixas em 2025 e ritmo de 21 só no primeiro trimestre de 2026. Os números revelam uma retração estrutural na aviação militar brasileira que, longe de ser um problema exclusivo da Defesa, afeta diretamente a formação de pilotos, a infraestrutura aeroportuária compartilhada e a capacidade de contingência do sistema de aviação civil.
Neste artigo
- Os números da retração
- Horas de voo por piloto: metade em uma década
- A frota que encolheu
- Evasão de pilotos: de 8 para 100 por ano
- Novas plataformas não compensam
- Aeródromos compartilhados e infraestrutura
- Comparação internacional
- Perguntas frequentes
- Fontes e referências
Os números da retração
A queda na atividade aérea militar não é pontual — é tendência consolidada ao longo de uma década. Os dados do CGNA/DECEA para os 100 principais aeródromos brasileiros:
| Ano | Movimentos militares | Variação |
|---|---|---|
| 2023 | 196.709 | — |
| 2024 | 182.869 | -7,0% |
| 2025 | 160.398 | -12,3% |
| Acumulado 2 anos | -18,45% |
O total de horas voadas pela FAB acompanha a mesma curva. Em 2016, durante a crise econômica, a Aeronáutica registrou apenas 102 mil horas de voo — o menor patamar em décadas. Nos anos seguintes houve recuperação parcial, estabilizando em torno de 113 mil horas anuais até 2022. Em 2024, nova queda para cerca de 97 mil horas.
O orçamento discricionário do COMAER (descontada a inflação pelo IPCA) caiu de R$ 4,34 bilhões em 2015 para R$ 2,06 bilhões em 2025 — uma retração real de 52,5%. Do orçamento total de R$ 29,4 bilhões em 2025, 80,6% são gastos com pessoal (salários e pensões), deixando apenas R$ 2,2 bilhões para consumíveis (incluindo combustível) e R$ 1,6 bilhão para investimentos.
Horas de voo por piloto
O indicador mais preocupante é a queda nas horas de voo anuais por piloto de combate:
| Período | Horas/ano por piloto |
|---|---|
| 2014 | 155 |
| 2016 | ~150 (corte oficial COMAER) |
| 2020 | ~110 (estimado, pandemia) |
| 2025 | ~80 (projetado) |
A queda de 155 para 80 horas anuais representa uma redução de 48% em onze anos. Para contexto, a OTAN recomenda mínimo de 180 horas anuais para pilotos de combate; a USAF opera com média de 200-220 horas. Com 80 horas, pilotos da FAB voam menos da metade do padrão OTAN.
A própria FAB aponta essa redução como principal causa da evasão de pilotos para companhias aéreas comerciais. A equação é direta: piloto militar que voa pouco perde proficiência, perde motivação e busca alternativas no mercado civil.
A frota que encolheu
A Força Aérea operava 526 aeronaves e reduziu para 319 — uma contração de 39%. A retração inclui desativações de aeronaves sem reposição e atrasos em programas de modernização:
| Plataforma | Quantidade original | Status |
|---|---|---|
| Mirage III (F-103) | 32 | Totalmente desativado |
| F-5E/F Tiger II | 79 adquiridos | Aposentadoria prevista até 2029 |
| AMX A-1M | 55 originalmente | Apenas 6 operacionais; saída em 2025 |
| AT-26 Xavante | 166 produzidos | Totalmente desativado |
| C-95 Bandeirante | Frota significativa | Envelhecida, sem substituto anunciado |
A redução líquida de 207 aeronaves em onze anos não tem precedente na história da FAB. As aposentadorias ocorreram sem reposição proporcional, e as novas plataformas (Gripen, KC-390) entram em ritmo insuficiente para fechar a lacuna.
Evasão de pilotos
A hemorragia de pilotos militares para a aviação comercial acelerou exponencialmente:
| Período | Baixas | Ritmo anualizado |
|---|---|---|
| 2019-2022 | ~8/ano | Estável |
| 2023 | 15 | Quase dobrou |
| 2024 | 30 | Dobrou novamente |
| 2025 (jan-set) | 59 | Projeção: ~79 |
| 2026 Q1 | 21 portarias | Projeção: ~84-100 |
O perfil dos que saem em 2025 reforça a gravidade: 5 majores, 26 capitães e 28 tenentes — majoritariamente pilotos de meia-carreira, nos quais a FAB investiu mais tempo e recursos. O custo estimado de formação por piloto é de R$ 27 milhões. As 59 baixas de 2025 representam cerca de R$ 1,6 bilhão em investimento público perdido.
A FAB formou 107 novos pilotos no PESOP 2025. Descontando as saídas, o saldo líquido é praticamente zero ou negativo. O programa Asas para Todos (parceria UFERSA/ANAC) — primeira formação pública de pilotos em universidade no Brasil — selecionou apenas 20 alunos (10 homens, 10 mulheres) entre 842 candidatos de 12 estados. A escala é promissora, mas insuficiente para repor o volume que a FAB historicamente fornecia à aviação civil.
Novas plataformas não compensam
A narrativa oficial destaca a modernização com Gripen e KC-390. Os dados operacionais contam outra história:
KC-390 Millennium:
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Encomenda original | 28 aeronaves |
| Encomenda revisada | 19 aeronaves |
| Entregues (até out/2025) | 8 aeronaves |
| Operacionalmente disponíveis | Apenas 2-3 voando |
| Taxa de indisponibilidade | ~75% |
| Cadência revista | 1 por ano (era 4/ano); último em 2034 |
Gripen F-39E/F:
| Ano | Entregas | Acumulado |
|---|---|---|
| 2022 | 4 | 4 |
| 2023 | 3 | 7 |
| 2024 | 1 | 8 |
| 2025-2026 | 3 | 11 |
| 2027-2032 | 25 | 36 (total final) |
O 12.º Gripen (FAB 4111) — primeiro montado no Brasil — foi apresentado em 25 de março de 2026. Porém, a cadência de 1-2 caças por ano não compensa a aposentadoria simultânea do F-5EM (prevista para 2029), AMX A-1M (2025) e da frota de transporte/patrulha envelhecida. A redução líquida de 207 aeronaves em onze anos não tem reversão prevista no horizonte.
Aeródromos compartilhados e infraestrutura
A FAB opera dezenas de bases aéreas no Brasil, várias delas com uso compartilhado civil. Exemplos relevantes:
| Base | Localização | Uso civil |
|---|---|---|
| BACO (Canoas) | Canoas/RS | ANAC autorizou expansão de 49 para 87 voos semanais |
| BAAN (Anápolis) | Anápolis/GO | Defesa aérea de Brasília; uso civil restrito |
| BASC (Santa Cruz) | Rio de Janeiro/RJ | Operações compartilhadas |
| BAMA (Manaus) | Manaus/AM | Suporte a operações na Amazônia |
| BARF (Recife) | Recife/PE | Uso civil complementar |
Em regiões remotas — especialmente na Amazônia e no Centro-Oeste — aeródromos militares são a única infraestrutura de pouso disponível para aviação geral e operações de emergência. A redução da atividade militar nessas bases pode significar menos manutenção de pista, menos presença de bombeiro, menos apoio ATC.
O DECEA opera com 5 ACCs, 42 APPs, 59 torres e 79 destacamentos — infraestrutura projetada para um nível de atividade militar superior ao atual. A retração de movimentos cria déficit de treinamento para os ~12.000 militares que gerenciam tanto tráfego militar quanto civil no modelo integrado brasileiro — modelo que a própria ICAO recomenda a outros países.
Comparação internacional
| Força Aérea | Horas/ano por piloto | Frota |
|---|---|---|
| USAF | 180-200+ | ~5.200 |
| RAF (Reino Unido) | 150-180 | ~700 |
| França | 162 (2022) | ~750 |
| Alemanha | 140-160 | ~600 |
| Rússia | 100-120 | ~3.800 |
| FAB (2014) | 155 | 526 |
| FAB (2025 est.) | ~80 | 319 |
O dado mais revelador: a FAB opera hoje com horas de voo por piloto abaixo da Rússia e no limite inferior da China. O mínimo recomendado pela OTAN é de 180 horas. Com 80 horas anuais, pilotos brasileiros voam menos da metade desse padrão.
Perguntas frequentes
Por que a atividade aérea da FAB está caindo?
Convergência de fatores: orçamento discricionário reduzido pela metade em termos reais desde 2015, envelhecimento e desativação de frotas sem reposição em volume equivalente, e programas de modernização (Gripen, KC-390) que consomem orçamento mas ainda não geram horas de voo proporcionais.
Como isso afeta pilotos civis?
De duas formas. No curto prazo, a evasão acelerada de pilotos militares para aéreas (59 em 2025, projeção de 100 em 2026) beneficia companhias como LATAM e Azul. No longo prazo, o pipeline se esgota: a FAB forma menos pilotos com menos horas, reduzindo a qualidade e o volume do principal celeiro histórico de pilotos de linha aérea no Brasil.
Aeródromos militares podem fechar para uso civil?
Não há indicação de fechamento, mas a redução de atividade implica menos manutenção, menos suporte de bombeiro e menos apoio ATC em bases compartilhadas. Pilotos de aviação geral que operam nesses aeródromos devem monitorar NOTAMs.
A FAB reconhece o problema?
Sim. A própria instituição apresentou ao Senado os dados de queda de horas de voo como principal causa da evasão. O custo estimado de R$ 27 milhões por piloto formado torna cada saída uma perda significativa de investimento público.
Quanto custa formar um piloto militar no Brasil?
Aproximadamente R$ 27 milhões, incluindo formação na AFA (Pirassununga), treinamento operacional e qualificação em tipo. As 59 baixas de 2025 representam cerca de R$ 1,6 bilhão em investimento perdido.
Fontes e referências
- CGNA/DECEA — Anuário Estatístico de Tráfego Aéreo 2025
- Horas voadas pela FAB caem 50% em 10 anos
- COMAER — Determinação de redução de horas de voo (2016)
- FAB perde 59 pilotos em 2025
- FAB perde 21 pilotos no Q1 2026
- KC-390 — Disponibilidade operacional
- Gripen — Cronograma de entregas até 2032
- Comparação internacional — Horas de voo por piloto
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