Pilotos e mecânicos de diversas regiões do Brasil — especialmente no Sul — voltaram a relatar problemas com a qualidade da gasolina de aviação (AVGAS 100LL) nas últimas semanas. As queixas incluem coloração anormal (tom palha ou amarelado em vez do azul característico), substâncias estranhas em amostras de dreno e, em casos mais graves, vazamentos em mangueiras e tubulações de tanques após abastecimento com lotes recentes. Os relatos circulam em grupos de pilotos e oficinas de manutenção, mas até o momento não houve pronunciamento oficial da ANP ou da ANAC sobre os casos de 2026.
O cenário desperta alerta porque repete sinais idênticos aos da crise de AVGAS de 2020, quando mais de 11.000 aeronaves foram afetadas e três distribuidoras suspenderam vendas simultaneamente em todo o país.
Neste artigo
- O que está sendo relatado
- A crise de 2020: o que aconteceu
- Por que a AVGAS muda de cor
- O problema dos aromáticos
- Petrobras e o monopólio do AVGAS
- Frota afetada: números do Brasil
- Como inspecionar combustível antes do voo
- Regulação: o que diz a ANP
- Perguntas frequentes
- Fontes e referências
O que está sendo relatado
Os relatos de abril de 2026 concentram-se em três sintomas:
| Sintoma | Descrição |
|---|---|
| Coloração anormal | AVGAS com tom palha, amarelado ou verde claro — distante do azul padrão do 100LL |
| Substâncias estranhas | Partículas e sedimentos visíveis em amostras coletadas no dreno |
| Vazamentos após abastecimento | Mangueiras, conexões e vedações de tanque apresentando gotejamento após uso de lotes recentes |
As ocorrências são reportadas por operadores de aviação geral, aeroclubes e escolas de aviação, majoritariamente na região Sul. Até o fechamento desta matéria, nem a ANP nem a ANAC publicaram alertas formais sobre os lotes em questão.
A crise de 2020: o que aconteceu
O Brasil já enfrentou a maior crise de AVGAS de sua história entre julho de 2020 e fevereiro de 2021. A cronologia:
| Data | Evento |
|---|---|
| 2018 | Petrobras desativa unidade de AVGAS na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), Cubatão/SP |
| 2018-2020 | Todo o AVGAS consumido no Brasil passa a ser importado do Golfo do México |
| Início de julho/2020 | AOPA Brasil recebe primeiros relatos de vazamentos de combustível em mais de 100 aeronaves |
| 7 de julho/2020 | AOPA protocola denúncia formal na ANAC e SAC |
| 8 de julho/2020 | ANP abre investigação |
| 9 de julho/2020 | ANAC emite Boletim de Aeronavegabilidade |
| 11 de julho/2020 | ANAC e ANP formam grupo de trabalho conjunto |
| 13 de julho/2020 | BR Distribuidora, Shell Aviation e Air BP suspendem vendas de AVGAS em todo o país |
| 17 de agosto/2020 | ANP confirma: AVGAS importada continha menos de 2% de aromáticos (contra 13-14% históricos) |
| Outubro/2020 | Petrobras retoma produção doméstica na RPBC |
| 3 de fevereiro/2021 | BR Distribuidora detecta novo defeito em lote doméstico; vendas suspensas novamente |
Mais de 11.000 aeronaves foram afetadas. A Justiça determinou indenização de R$ 59.300 a proprietários de aeronaves danificadas na crise de 2020.
Por que a AVGAS muda de cor
A AVGAS 100LL recebe corante azul (1,4-dialquilaminoantraquinona) durante o refino para identificação de grau. A concentração máxima permitida pela ANP é de 2,7 mg/L. No entanto, vários fatores podem alterar a coloração:
Degradação por UV. O corante azul não é estável à luz ultravioleta. AVGAS armazenada em recipientes transparentes sob luz solar muda de azul para amarelo em aproximadamente dois meses.
Baixo teor de aromáticos. O combustível base sem corante é naturalmente amarelo-alaranjado. Se a concentração de corante for insuficiente ou degradar, a cor natural predomina.
Lixiviação de óleos em mangueiras. Mangueiras novas de BUNA-N contêm óleos de fabricação que podem sangrar para o combustível, conferindo tom alaranjado.
Oxidação. Após aproximadamente um ano de armazenamento, oxidação e acúmulo de goma afetam cor e qualidade.
Contaminação cruzada. Mistura com querosene (cor palha) ou gasolina automotiva dilui o corante azul.
A mudança de cor isolada não significa necessariamente contaminação — mas é um indicador que exige investigação. Na crise de 2020, o combustível aprovava nos testes de cor da ANP, mas era criticamente deficiente em aromáticos.
O problema dos aromáticos
A raiz da crise de 2020 foi uma lacuna na norma técnica. A ASTM D910, referência internacional para AVGAS, não especifica um teor mínimo de compostos aromáticos. O padrão foi desenhado com base em perfis de refino que historicamente continham 13-14% de aromáticos.
Quando a Petrobras importou AVGAS com menos de 2% de aromáticos do Golfo do México, o combustível atendia a todos os parâmetros da ANP — mas era incompatível com os materiais elastoméricos (vedações, O-rings, mangueiras, juntas e revestimentos de tanque) da frota brasileira.
| Parâmetro | AVGAS doméstica (RPBC) | AVGAS importada (2018-2020) |
|---|---|---|
| Aromáticos | 13-14% | Menos de 2% |
| Efeito nas vedações | Compatível (vedações inchadas/seladas) | Vedações contraídas → vazamentos |
| Conformidade ANP | Sim | Sim (norma não exigia mínimo) |
| Resultado prático | Operação normal | Mais de 100 aeronaves com vazamentos |
O mínimo de 8% de aromáticos amplamente citado para compatibilidade de vedações vem de normas de querosene (ASTM D1655), não de AVGAS. A Resolução ANP 901/2022, que substituiu a RANP 5/2009 após a crise, foi publicada em novembro de 2022 — mas a verificação de se o problema dos aromáticos foi endereçado requer análise do anexo técnico completo da resolução.
Petrobras e o monopólio do AVGAS
O Brasil opera com um ponto único de falha na cadeia de AVGAS: a Petrobras detém monopólio absoluto sobre produção e importação. A estrutura:
| Elo | Agente | Status |
|---|---|---|
| Produção/importação | Petrobras (RPBC, Cubatão/SP) | Monopólio |
| Distribuição | Vibra (ex-BR), Shell/Raízen, Air BP | Três distribuidoras |
| Revenda | Aeroportos, aeródromos | Centenas de pontos |
Quando a Petrobras suspende fornecimento — como em julho de 2020 — todas as distribuidoras são afetadas simultaneamente. A RPBC (Refinaria Presidente Bernardes) em Cubatão é descrita pela própria Petrobras como referência na produção exclusiva de gasolina de aviação.
Após a crise de 2020, a Vibra Energia (antiga BR Distribuidora) foi vendida pela Petrobras em 2021 e tornou-se empresa independente listada em bolsa. Mas a Petrobras mantém o monopólio da produção.
Frota afetada: números do Brasil
| Categoria | Quantidade |
|---|---|
| Aeronaves a pistão monomotor | 4.479 |
| Total aviação executiva/GA | 9.824 |
| Frota agrícola | 2.722 |
| Aeronaves voando regularmente (RAB) | 10.042 |
| Aeronaves potencialmente afetadas (crise 2020) | Mais de 11.000 |
O Brasil possui a segunda maior frota de aeronaves de negócios do mundo e a segunda maior frota de aviação agrícola. A maioria dessas aeronaves depende de AVGAS 100LL — combustível cuja cadeia de fornecimento inteira passa por um único produtor.
Como inspecionar combustível antes do voo
O procedimento de dreno é a primeira linha de defesa do piloto. Passo a passo recomendado:
Inspeção visual de cor. AVGAS 100LL deve ser azul. Qualquer desvio (amarelo, palha, verde, turvo) exige investigação antes de voar.
Dreno por ponto de amostragem. Comece pelo ponto mais alto e desça. Drene pelo menos um copo de cada ponto (tanques das asas, gascolator/filtro de combustível).
Recipiente transparente. Use jarra GATS ou copo transparente contra fundo branco. Em inspeções noturnas, ilumine lateralmente.
Verificação de água. Água deposita-se no fundo da amostra. Combustível com água dissolvida apresenta aspecto turvo ou leitoso.
Partículas e sedimentos. Observe contra a luz. Qualquer material sólido visível é motivo para não abastecer com aquele lote.
Teste de odor. AVGAS tem cheiro adocicado característico. Odor atípico indica contaminação.
Se houver dúvida, não voe. Comunique ao posto de abastecimento e reporte à oficina de manutenção.
Ação pós-crise 2020 recomendada pela ANAC: operadores com histórico ou evidência de contaminação devem procurar imediatamente oficinas de manutenção aeronáutica credenciadas. Oficinas devem reportar achados pelo sistema SDR (Service Difficulty Reporting) da ANAC.
Regulação: o que diz a ANP
A especificação vigente para AVGAS no Brasil é a Resolução ANP 901/2022, em vigor desde 1.º de dezembro de 2022. Ela substituiu a RANP 5/2009 e referencia:
- ASTM D910 — especificação internacional para gasolina de aviação com chumbo
- Defence Standard 91-90 — padrão britânico complementar
- ABNT NBR 15216 — controle de qualidade em armazenamento, transporte e abastecimento de combustíveis de aviação
A resolução exige que produtores realizem análise completa em amostras representativas de cada lote e emitam Certificados de Qualidade. O corante autorizado é exclusivamente azul, com limite máximo de 2,7 mg/L.
A AOPA Brasil levantou dez questionamentos críticos à ANP após a crise de 2020, incluindo por que a agência aprovou AVGAS com baixo teor de aromáticos e por que padrões mais rígidos de densidade não foram aplicados ao combustível de aviação. A ANP recomendou densidade mínima de 701 kg/m³ como parâmetro indireto de qualidade (norma histórica: 715-720 kg/m³).
Perguntas frequentes
O AVGAS com cor diferente é sempre contaminado?
Não necessariamente. Degradação por UV, armazenamento prolongado e mangueiras novas podem alterar a coloração sem comprometer a segurança. Porém, a mudança de cor é um alerta que exige investigação — especialmente se acompanhada de vazamentos ou partículas.
A crise de 2020 pode se repetir?
Estruturalmente, sim. O monopólio da Petrobras na produção e importação de AVGAS permanece. A lacuna na ASTM D910 sobre aromáticos mínimos não foi plenamente endereçada. A cadeia de fornecimento tem o mesmo ponto único de falha.
O que fazer se eu encontrar AVGAS suspeita?
Não voe. Comunique ao posto de abastecimento, documente com fotos e amostras retidas, reporte à oficina de manutenção credenciada e registre ocorrência no sistema SDR da ANAC. Se possível, comunique à AOPA Brasil.
Quantas aeronaves dependem de AVGAS no Brasil?
Aproximadamente 12.000 aeronaves, incluindo 4.479 monomotores a pistão, 2.722 aeronaves agrícolas e milhares de bimotores e helicópteros a pistão.
Existe alternativa ao AVGAS 100LL?
A GAMI obteve STC para uso de G100UL (AVGAS sem chumbo) nos EUA, mas o produto ainda não está disponível comercialmente no Brasil. A transição para combustível sem chumbo depende de certificação pela ANAC e capacidade de produção local.
Fontes e referências
- ANP — Comunicado sobre gasolina de aviação (ago/2020)
- ANAC — Resposta sobre contaminação de AVGAS (jul/2020)
- Resolução ANP 901/2022 — Especificação do GAV 100LL
- AOPA — Monitoring Brazilian AVGAS situation
- Petrobras — Gasolina de aviação
- ASTM D910 — Leaded Aviation Gasolines
- ABNT NBR 15216 — Controle de qualidade de combustíveis de aviação
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